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Brincadeira de criança é coisa séria - 2010
Os adultos costumam se perguntar de onde as crianças tiram tanta energia para brincar o dia todo. Algumas crianças nos dão a impressão de que ligam seus motores ao levantar e somente os desligam à noite, depois de muita insistência de seus pais e mães. Será que as crianças não se cansam de brincar?
Pode-se dizer que a brincadeira é o "trabalho" da criança. É pela brincadeira que ela aprende a lidar com algumas de suas emoções, desempenha de forma lúdica papéis sociais e exercita o complicado mundo de regras, típico da nossa cultura.
Por exemplo: quando o bebê balança vigorosamente objetos barulhentos (muitas vezes até enlouquecer os adultos presentes), está aprendendo que suas ações têm conseqüências físicas: o barulho é conseqüência do seu próprio movimento. O mesmo acontece nas brincadeiras em que derruba algo no chão para que o adulto apanhe. Além de exercitar o conceito de causalidade, ele começa a aprender uma relação importantíssima na vida adulta, que é a alternância de papéis nas interações sociais. Nós, adultos, costumamos esperar nossa vez para falar quando estamos em uma conversa social animada ou em uma reunião, respeitamos a ordem de entrada em um ambiente público (um de cada vez) e cooperamos uns com os outros na execução de determinados trabalhos. Mas a aprendizagem dessas "regras sociais" não ocorreu apenas devido à educação que recebemos. Ela começou muito cedo, lá naquela brincadeira de jogar as coisas no chão para o adulto pegar ou naquela brincadeira de fazer cócegas, quando o bebê aprende que, para ter de novo a sensação deliciosa das cócegas, deve emitir algum tipo de sinal para o adulto e que há um momento certo para emitir esse sinal.
As regras sociais também são aprendidas quando as crianças se juntam para jogar futebol ou vôlei. Além de ter que obedecer às regras do jogo, elas aprendem que a colaboração entre os membros do grupo é a forma mais eficaz de vencer o time adversário (os famosos "fominhas" acabam sendo hostilizados).
As famosas brincadeiras de faz-de-conta, além de exercitarem a imaginação, são uma espécie de demonstração de como a criança enxerga o mundo. Ao brincar de casinha, ela exercita os papéis sociais de pai, mãe, irmão, etc., da maneira como observa esses papéis sendo exercidos na realidade. Essas brincadeiras também mostram os estereótipos sexuais presentes na cultura da criança, quando ela mesma define que tipo de brincadeira é de menino e qual brincadeira é permitida para a menina.
As brincadeiras de luta, assim como as que envolvem perseguição e fuga (polícia-e-ladrão, pega-pega, etc.), ajudam as crianças a lidar ludicamente com o medo e as ações decorrentes dele: a fuga e o enfrentamento. Por ser uma brincadeira, elas vivem prazerosamente essas sensações e aprendem a controlar tanto suas emoções quanto seus impulsos (é preciso brincar de lutar sem machucar o colega e, para isso, é necessário modular a força dos ataques, senão a brincadeira acaba), o que será muito útil na vida adulta.
Quanta coisa que se aprende brincando! É por isso que, quanto mais variada for a atividade lúdica, maior será a oportunidade para que as crianças desenvolvam a empatia, a criatividade e o comportamento pró-social e melhor aprenderão a manejar emoções como o medo e a frustração. Cabe ao adulto lhes proporcionar essas oportunidades, não só comprando montanhas de brinquedos, mas participando dos momentos lúdicos da vida da garotada, interagindo com eles e incentivando-os a sair da frente da TV para brincar mais.
Karl Groos apresenta uma visão muito interessante sobre a função das brincadeiras na infância e na adolescência. Ele diz que "agora percebemos que a infância e a juventude existem a serviço da brincadeira". De acordo com ele, nós não brincamos porque somos seres lúdicos, mas porque somente dessa maneira podemos complementar nossa "insuficiente dotação hereditária com a experiência individual para enfrentar as tarefas da vida que estão por vir". Então, existe algo mais sério na vida de uma criança do que a brincadeira?
Fonte: WWW.portalpositivo.com.br - Andréia Schmidt
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